segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sou um velho muito bonito

Passei pela fonte do tempo
deixei a juventude para trás
nas intempéries e contra tempos
tornei-me neste velho rapaz.
Na terra encontrei o meu sustento
e acalmei um estômago em rebuliço
a enxada, a foice, o cajado
foi o meu suor, não foi feitiço.
E se repararem bem na minha pele
está cheia de estradas bem vincadas
algumas sementes ainda lá estão
fiquei com as mãos calejadas.
As unhas sujas!..quero lá saber!..
os olhos nunca perderam a tristeza
parece que estou a sorrir
este meu retrato está uma beleza.
Até o cigarro me fica bem
sou um velho muito bonito
como a velhice e trabalho combinam!..
já viram o chapéu?..nunca me tinham visto.
Pareço aquele actor de cinema
o Paul Newman, mas ele faleceu!..
O meu bigode está branquinho, bem cuidado
nunca me vi sem ele, sou um velho afortunado.

Cristina Ivens Duarte





domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Sua Alteza"

É difícil esquecer-te tão cedo
quando te vi no jardim da Celeste
tão linda que mantive em segredo
um sonho que um dia me deste.

Colheste uma flor cor de rosa
combinava tão bem com a tua pele
senti ao longe a relação amorosa
de uma abelha que tem com o seu mel.

Os meus olhos cobiçaram os teus
delicados como um tecido de tule
fez-me lembrar que só o meu Deus
tinha uma cor assim azul.

Vou-te por um nome à tua altura
vais pertencer à realeza
e juntamente com a tua doçura
te chamarei, "Sua Alteza".

Cristina Ivens Duarte










Há sempre alguém

Há sempre alguém que poisa em nós
porque se sente bem à nossa beira
são ventos vindos de outras mós
que nos refrescam a vida inteira.
São arfadas de ar fresco
que desabotoam o nosso olhar
deixam nos olhos um poema
de um pássaro na mão a poisar. 
É alguém bastante afortunado
dentro dele existe um belo ninho
tem um pozinho abençoado
que faz feliz o passarinho.
Para tal é preciso ser especial
há que ter um beiral de faiança
o coração  ser de cristal
e o sentimento, de criança.
Cristina Ivens Duarte

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Quando choras

Quando choras as marés sobem
parece que o mundo chora contigo
é um soluçar que alaga os campos
enche os rios e destrói o trigo.

E eu, não suporto ver-te a chorar
parece que sinto a terra a abater
não sei se é dor ou deixas-te de me amar
ou simplesmente preferes morrer.

Porque me expões a esta angustia
e não me explicas o teu sofrer
diz-me só que é um cisco no olho
que eu peço ao mundo que pare de chover.

Não chores amor por favor
deixa-me salvar-te dessa tristeza
sei que a chuva não te põe assim
e do meu amor eu tenho a certeza.


Cristina Ivens Duarte












quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Beijam-se os montes

Beijam-se os montes ao cair da noite
por amores perdidos que ali passaram
ventos cortantes abrem suas bocas
e deixam marcas que em tempos amaram.

Amaram-se eternamente
naquelas escarpas escaldantes
com os seus corpos desnudados
são agora montes e dois amantes.

E as marcas do tempo ficam para sempre
mesmo em pedra firme e tempo quente
porque do amor o vento não esquece
escava beijos que são para sempre.

E na tentativa de querer beijar
chega a sombra de mansinho
sobre o monte a querer sonhar
repousa a boca com um beijinho.

Cristina Ivens Duarte

Eu e o meu mar

Há um lugar em que o chão se abre
e os pés se enterram ao sonhar
com as ondas, costumo ir
e com as gaivotas, costumo voar.

O som me acalma e invade o corpo
e a pele crepita com o sol a queimar
percorro a areia com pés de veludo
com o meu vestido da cor do meu mar.

Os búzios chamam-me, com o subir das marés
sinto a força do mar,, a bater-me nos pés
olho o céu e vejo, tudo o que é sagrado
oiço asas a bater, sinto o tempo mudado.

O regressar deixa saudades
o areal, as tempestades
as conchas esquecidas em céu aberto
e eu aqui perdida, com o meu mar tão perto.

Cristina Ivens Duarte


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Teus braços, meu vestido

É com os teus braços que me sinto vestida
quando me abraças e me vestes assim
é sem dúvida o vestido mais lindo
que o amor pode dar para mim.

Tanto abraço, tanto folho
tanta cor no teu tecido
tanto laço nos teus braços
tantos beijos no meu vestido.

Como me posso sentir assim
vestida, sem vestido
é o amor que vem de ti
do abraço tão sentido.
Não há nada mais belo
nada mais encantador
ser vestida com um abraço
estampado com amor.

Cristina Ivens Duarte











quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Se olhar-mos sempre para o céu

Se olhar-mos sempre para o céu
ficamos com a alma da mesma cor
com a boca a saber a salva
e uma dormência que acalma a dor.

Olha para o céu e vais ver
como os teus olhos encandeiam
é o sol que os beija sem querer
espalha o brilho, sem que eles queiram.

E se uma lágrima escorrer nos teus olhos
é porque o céu te quer a chorar
é o calor da sua fornalha
a libertar o teu perfume para o ar.

Se olhar-mos sempre para o céu
cresce-nos a vontade de voar
como cetim azul e branco
num vendaval ao pé do mar.

Cristina Ivens Duarte




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O meu lenço de linho

Acordei com os olhos molhados
enxuguei-os num lenço de linho
no centro estavam bordados
os teus lábios cor de vinho.

Chorava eu mais o lenço
a boca bordada se abria
eras tu em pensamento
um grande beijo me pedias.

Beijei-te intensamente
e o meu lenço não aguentou
no momento  que a boca se abria
no meu beijo o lenço chorou.

Rasgou o meu lenço de linho
a doce boca que eu queria beijar
o meu beijo só queria carinho
outra boca vou ter que bordar.

Bordar suavemente
uns lábios cor de vinho
enxugar os meus olhos molhados
num lindo lenço de linho.

Cristina Ivens Duarte



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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A pomba

Queria ser pomba e voar
encontrar a felicidade
enviar uma carta
aonde mora a saudade.

Poisar numa nuvem branca
e escrever cartas de amor
enchê-las de esperança
com perfume de flor.

Deixar cair as penas
e aquecer os corações
ficar com uma apenas
para escrever recordações.

Quando estivesse a chover
pendurava-me num beiral
abria a asas e desenhava
a felicidade num postal.

Cristina Ivens Duarte






terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sou e não sou

Há tanta coisa em mim
que eu sei que não sou
mas tento todos os dias
ser a pessoa que sou.

Sei que sou boa pessoa
o que não sei, não quero saber
porque a pessoa que eu sou
é a pessoa que eu gosto de ser.

Ser outra pessoa não me atenta
muito menos agradar a quem for
apenas me agrada ser esta pessoa
se a outra pessoa, boa pessoa for.

Sou e não sou
todos somos não sei o quê
somos todos boa pessoa
mas não é nos olhos que se vê.

Cristina Ivens Duarte








segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Segue o teu coração

Apesar da neblina e da dor do meu olhar
sei que sou uma linda mulher
a vida esfrega-me na cara
tudo aquilo que nela fizer.

Cada ruga é uma história contada
com belos sinais de pontuação
é uma vida de forma pausada
tem a forma do meu coração.

Sigo-o sempre quando bate mais forte
e as borboletas invadem o meu corpo
sei que assim não perco o norte
e o desejo não fica morto.

Sigo sempre o meu coração
porque ele quer é ver-me feliz
ele tem sempre toda a razão
continuo linda porque ele quis.

Cristina Ivens Duarte